Netflix paga suposto valor de R$ 500 mil por documentário sobre Suzane von Richthofen; Valor equivale a mais de 24 anos de trabalho de um cidadão sob o salário mínimo de R$ 1.621

O salário mínimo vigente de R$ 1.621 no Brasil estabelece, em tese, um piso para manter a dignidade econômica a milhões de trabalhadores. No entanto, um movimento recente de mercado evidenciou o abismo financeiro que separa a realidade do trabalhador comum de gêneros lucrativos ao streaming, como o true crime.

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Inclusive, conforme uma informação revelada pela coluna F5, da Folha de S. Paulo, a Netflix pagou uma fortuna de R$ 500 mil para Suzane von Richthofen gravar um documentário inédito.

Essa informação expôs uma estratégia da plataforma de streaming para obter depoimentos exclusivos da ex-detenta.

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Suzane von Richthofen (Foto: Reprodução)
Suzane von Richthofen no documentário da Netflix (Foto: Reprodução/ Netflix)

Os bastidores do contrato e cláusulas de sigilo

Ainda de acordo com a F5, para viabilizar o projeto e assegurar o ineditismo das declarações, a gigante do streaming estruturou uma operação contratual cercada de blindagem jurídica e restrições severas:

  • Vínculo vitalício de confidencialidade: O acordo financeiro possui cláusulas de sigilo rígidas. Conforme apurado pela Folha, Suzane assinou um termo que a proíbe perpetuamente de confirmar de forma pública que recebeu compensação financeira direta pela produção;
  • Janela de exclusividade: A ex-detenta está impedida de conceder entrevistas ou depoimentos a veículos de comunicação concorrentes e canais de televisão por um período de tempo predeterminado no contrato;
  • Monetização do entorno: Suzane não foi a única a lucrar. O orçamento da produção incluiu o pagamento de taxas a familiares para a autorização do uso de imagens de arquivo e compensações financeiras ao atual marido de Suzane, o médico Felipe Zecchini Muniz, que concedeu entrevistas exclusivas detalhando a rotina e a nova vida da esposa fora da prisão.

Análise comparativa:

Mas, enquanto um cidadão sob o piso nacional precisaria trabalhar por mais de 24 anos consecutivos para acumular tal montante, a atenção pública convertida em entretenimento garantiu à protagonista um ganho imediato de meio milhão de reais.

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Para mensurar o tamanho do abismo socioeconômico desenhado por essa transação comercial, é necessário traduzir o montante de R$ 500 mil em tempo de vida e espaço laboral sob as regras do mercado de trabalho brasileiro:

  • Trabalhador de salário mínimo (R$ 1.621,00): Necessita receber o piso nacional por 308 meses para atingir a quantia bruta paga pela plataforma. Ao incluir o direito constitucional ao 13º salário e ao terço de férias proporcional, essa conta equivale a exatamente 24 anos e 2 meses de trabalho sem folga;
  • Trabalhador na renda média nacional (R$ 3.200,00 aprox.): Precisaria empenhar cerca de 11 anos e 6 meses de sua vida profissional para alcançar o mesmo valor.
Salário mínimo (Foto: Montagem TV Foco / GMN)
Trabalhadores que recebem um salário mínimo levariam meia vida para conseguir o valor pago a Suzane pelo documentário (Foto: Reprodução/Montagem TV Foco / GMN)

O cálculo do salário mínimo parte de uma premissa puramente teórica de acúmulo.

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Na realidade prática da economia doméstica, em que o piso é integralmente consumido por necessidades básicas, como alimentação, moradia e transporte, acumular um patrimônio líquido de meio milhão de reais é uma meta estatisticamente inviável para a base da pirâmide social.

Ou seja, o cidadão comum gasta metade de sua vida útil profissional para gerar o equivalente ao que o mercado de mídia liquida em um único orçamento de produção.

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Streaming em guerra

O investimento na produção de “Suzane vai Falar” foi motivado diretamente pela concorrência de mercado.

A iniciativa foi encomendada pela Netflix como uma resposta comercial imediata ao sucesso de “Tremembé”, série da rival Amazon Prime Video estrelada pela atriz Marina Ruy Barbosa, que quebrou recordes de audiência na plataforma concorrente.

Contudo, pagar cifras elevadas a figuras centrais de crimes hediondos gerou um debate ético inflamado entre os profissionais do audiovisual brasileiro.

Conforme apontou a reportagem da coluna F5, existe um receio generalizado de que produções desse tipo alterem de forma negativa a percepção do público sobre as plataformas.

Muitos especialistas e diretores compararam a abordagem mercadológica ao histórico episódio da falsa entrevista com integrantes do PCC, exibida no programa do apresentador Gugu Liberato nos anos 2000.

O argumento central é que a remuneração direta de criminosos degrada o mercado nacional e flerta com o sensacionalismo de audiência.

Vale destacar que a Netflix, ao ser formalmente procurada pela imprensa para comentar os valores, adotou sua postura padrão e afirmou que não divulga detalhes financeiros de suas produções internas.

Como funciona o direito de imagem de ex-criminosos?

No Brasil, o debate sobre o direito de imagem e o lucro obtido por condenados pela narrativa de seus crimes esbarra na ausência de uma “Lei Son of Sam”, legislação existente em estados dos EUA que impede criminosos de lucrarem com a venda de livros, filmes ou entrevistas sobre seus delitos, revertendo os fundos para as vítimas ou para o Estado.

Na falta de uma restrição legal explícita em território nacional, os contratos privados de direito de imagem permanecem válidos, permitindo que a receita seja recebida de forma lícita pela titular após o cumprimento de sua pena em regime aberto. Para assuntos similares, clique aqui*.