Invasão ao vivo e decreto de falência: O dia em que icônica emissora deu adeus ao Brasil

Falência e perseguição acabaram com emissora icônica de TV (Foto: Reprodução/Canva/Lennita/Tv Foco)
Muito antes da Rede Globo consolidar sua soberania, a TV Excelsior mudou a teledramaturgia e o jornalismo no Brasil antes de sofrer uma cassação implacável em 70
A falência e o encerramento definitivo das atividades de uma icônica emissora de TV, ocorridos no ano de 1970, marcaram tragicamente o fim de uma era de inovação desenfreada e vanguarda na televisão brasileira.
Estamos falando da saudosa TV Excelsior, a qual teve o seu fechamento como um dos episódios mais emblemáticos, sombrios e discutidos de censura e autoritarismo estatal durante o auge da ditadura militar no país.

Isso porque a emissora, que revolucionou completamente a linguagem da teledramaturgia nacional e moldou o formato moderno dos telejornais que consumimos até hoje, não sucumbiu apenas a uma grave crise financeira interna. Na verdade, a rede foi alvo de uma estratégia política deliberada e asfixiante do Estado, que culminou em um episódio cinematográfico de invasão ao vivo e na cassação definitiva de sua concessão pública.
Um gigante tentando sobreviver ao caos
De acordo com o portal Wiki, ela foi fundada no início da década de 60 pelo visionário empresário Mário Wallace Simonsen.
Logo ela se transformou em um verdadeiro fenômeno de audiência e inovação técnica, além, claro, de sinônimo de modernidade.
Contudo, logo após o golpe militar de 1964, o canal tornou-se um alvo prioritário e incômodo para os generais que assumiram o poder.
A perseguição promovida pelo governo não se limitou ao campo político e ideológico, mas avançou ferozmente na esfera econômica.
O Estado realizou a apreensão e o congelamento dos bens de todo o poderoso grupo Simonsen, holding que incluía outras grandes empresas nacionais, como a icônica companhia aérea Panair do Brasil.
Essa manobra financeira desestabilizou por completo o fluxo de caixa do canal de televisão, inviabilizando investimentos e o pagamento de funcionários.

Censura e perseguição:
Entre os anos de 1964 e 1965, a censura ideológica tornou-se rotina nos bastidores, resultando em cortes brutais de roteiros de novelas e em denúncias públicas corajosas feitas pela própria emissora em sua programação.
Logo em seguida, entre 1967 e 1968, a crise de gestão se aprofundou severamente, gerando atrasos salariais crônicos e provocando uma debandada em massa de grandes talentos e estrelas para as redes concorrentes que começavam a crescer.
Para piorar o cenário, em 1969, desastres físicos sepultaram as chances de reação da empresa, quando um forte vendaval destruiu a torre de transmissão do canal no Sumaré, no Rio de Janeiro, agravando o caos financeiro.
O golpe de misericórdia veio em 1970, com a cassação oficial decretada pelo Governo Federal, sob o pretexto técnico de violações sistemáticas ao Código Brasileiro de Telecomunicações.
Quando a TV Excelsior findou de vez?
O encerramento oficial da TV Excelsior conseguiu ser tão teatral, impactante e dramático quanto a própria programação que ela exibia diariamente.
No dia 28 de setembro de 1970, a licença de funcionamento da rede foi sumariamente revogada pelo governo.
Dois dias depois, em 30 de setembro, o destemido jornalista Ferreira Neto protagonizou um momento histórico: ele invadiu os estúdios principais em um gesto desesperado de resistência satírica.
Ao vivo, o profissional transmitiu uma mensagem humorística, ácida e emocionante, que serviu como o último suspiro da emissora no ar.
Segundos depois, técnicos do DENTEL (Departamento Nacional de Telecomunicações) entraram fisicamente nas instalações e cortaram o sinal do transmissor de forma abrupta, deixando milhares de televisores em um completo chuvisco cinzento.
Aquela triste cena representou o fim melancólico de uma rede extraordinária, que chegou ao auge de exibir impressionantes 17 telenovelas em um único ano (1965).
A Excelsior também gravou seu nome na história ao ser pioneira em transmissões experimentais em cores (utilizando o padrão americano NTSC) já para a Copa do Mundo de 1962, além de idealizar e lançar o Primeiro Festival de Música Popular Brasileira, evento icônico responsável por imortalizar a canção “Arrastão” na voz inesquecível da jovem Elis Regina.
Por que a TV Excelsior foi tão perseguida pela ditadura?
O Estado agiu contra a Excelsior porque, diferente de outros conglomerados de mídia daquela mesma época, a diretoria do canal não se alinhou de forma cega à narrativa triunfalista do governo militar.
O embate político foi ainda mais agravado por propostas oportunistas de governadores influentes, como Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro, e Ademar de Barros, em São Paulo.
Ambos tentaram utilizar as pesadas dívidas fiscais da emissora com os estados como um trunfo político para assumir o controle acionário do canal.
Essas propostas foram rejeitadas pelo governo federal, que preferiu o esvaziamento total, o sufocamento financeiro e a extinção definitiva da marca.
A cassação da emissora foi oficialmente sustentada por um Decreto Presidencial sob a justificativa jurídica de violação das normas do Código Brasileiro de Telecomunicações.
No entanto, os bastidores jurídicos revelam uma grande injustiça: a emissora possuía, por lei, o prazo civil, que deveria ser até o dia 15 de dezembro de 1970, para quitar metade de suas dívidas ativas.
O governo militar, agindo de forma unilateral e autoritária, executou a medida de fechamento muito antes do vencimento do prazo, inviabilizando qualquer tentativa de recuperação judicial ou renegociação de blocos econômicos.
Cinco anos após o silêncio forçado do Canal 2 no Rio de Janeiro, o governo militar instalou no local a TVE Brasil, emissora educativa que, décadas mais tarde, se transformaria na atual TV Brasil.
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