Padre detalha suposto abuso cometido por bispo e revela a Geraldo Luís relato sobre remédios, violência sexual e pedido de socorro
O Padre Jorge voltou a falar publicamente sobre as acusações que fez contra o ex-bispo Valdir Mamede e trouxe novos detalhes durante uma entrevista repercutida pelo apresentador Geraldo Luís. É importante destacar que Geraldo Luís não participou dos fatos narrados e nem conduziu os acontecimentos. Ele apenas recebeu as informações e deu espaço para divulgar o depoimento do religioso.
Ao longo da conversa, o padre afirmou que viveu anos de abuso, medo e perseguição dentro da estrutura da Igreja Católica, descrevendo uma sequência de episódios que, segundo ele, começaram com atitudes aparentemente comuns, mas que evoluíram para situações graves. O relato também reforçou que a denúncia não envolve apenas os supostos abusos sexuais, mas também uma relação de autoridade que, segundo o sacerdote, dificultava qualquer reação ou denúncia imediata.
As acusações fazem parte de um caso que atualmente também tramita na Justiça, depois que o Ministério Público de São Paulo apresentou denúncia criminal contra o ex-bispo, que nega as acusações.

Durante a entrevista, o padre explicou que, quando iniciou sua convivência com o então bispo, recebeu orientação de um superior para enxergá-lo como um “pai espiritual”. Segundo ele, essa relação de confiança acabou sendo usada de forma inadequada. O religioso contou que os primeiros pedidos chamaram sua atenção, como solicitações para ajudá-lo com depilação corporal, algo que considerou estranho, mas que inicialmente acreditou fazer parte da rotina de cuidados pessoais do bispo.
Depois disso, segundo seu relato, vieram situações cada vez mais desconfortáveis. Um dos episódios mais marcantes aconteceu quando ele foi orientado a dormir na residência episcopal porque, no dia seguinte, precisaria levar o bispo ao aeroporto. O padre contou que havia tomado medicamentos por volta das 7 horas da noite, remédios que costumavam provocar bastante sono. Enquanto descansava no sofá, afirmou que, por volta das 8h04, o bispo veio por cima dele e se jogou sobre seu corpo.
Segundo seu depoimento, o abuso aconteceu naquele momento. O sacerdote afirmou que ficou completamente paralisado pelo choque, sem conseguir reagir, descrevendo uma sensação de bloqueio físico e psicológico causada pelo trauma.
Ao lembrar daquele período, o padre disse que levou muito tempo para compreender tudo o que havia acontecido. Segundo ele, vítimas de violência sexual frequentemente enfrentam dificuldades para reagir imediatamente porque o medo, a vergonha e o trauma podem provocar um estado de paralisação. O religioso afirmou que, durante muito tempo, acreditou que a instituição resolveria internamente a situação, mas isso, segundo ele, não aconteceu.
Com o passar dos meses, passou a perceber relatos semelhantes envolvendo seminaristas e outros religiosos, aumentando sua preocupação com a possibilidade de novas vítimas.

O depoimento também abordou a dificuldade de produzir provas em casos desse tipo. O padre afirmou que decidiu agir por conta própria quando percebeu novos episódios que considerou suspeitos. Segundo ele, em uma ocasião encontrou vestígios que atribuía ao então bispo em um lençol e resolveu preservar aquele material. Depois, com ajuda financeira de outras pessoas, conseguiu pagar um exame de perfil genético, conhecido popularmente como teste de DNA.
Esse exame compara o material biológico encontrado com o perfil genético de uma pessoa para verificar se existe compatibilidade. O sacerdote explicou que tomou essa decisão porque entendia que apenas seu relato talvez não fosse suficiente para convencer autoridades e que precisava reunir elementos que fortalecessem sua denúncia.
Em outro momento considerado importante da entrevista, por volta dos 11 minutos da conversa, o padre falou sobre um pedido de socorro. Segundo ele, esse pedido surgiu quando percebeu que não conseguiria enfrentar sozinho uma estrutura que descreveu como extremamente hierarquizada.
O sacerdote afirmou que decidiu procurar apoio porque acreditava que outras pessoas poderiam estar correndo riscos semelhantes. Para ele, permanecer em silêncio significaria permitir que novos episódios continuassem acontecendo.
O religioso também afirmou que enfrentou dificuldades após confrontar o então bispo com os resultados dos exames que havia reunido. Segundo seu relato, o acusado teria criado uma versão alternativa para explicar os acontecimentos, dizendo que um terceiro sacerdote teria roubado peças íntimas para incriminá-lo.
O padre negou essa versão e declarou que passou a sofrer perseguições depois de insistir nas denúncias. Ainda durante a entrevista, afirmou que enviou documentos detalhando supostas irregularidades envolvendo diversos bispos ao Vaticano, na tentativa de obter providências.

Ao comentar o funcionamento da Igreja, o padre disse que considera a estrutura semelhante a uma monarquia, na qual o bispo ocupa a posição de maior autoridade dentro da diocese. Segundo ele, essa relação hierárquica torna muito difícil que um sacerdote subordinado consiga denunciar seu superior sem enfrentar consequências pessoais e profissionais.
O religioso afirmou que esse cenário contribuiu para o medo que sentiu durante anos e dificultou sua decisão de procurar as autoridades.
As declarações do sacerdote ganharam ainda mais repercussão porque o caso avançou na esfera judicial. O Ministério Público de São Paulo denunciou o ex-bispo Valdir Mamede por supostos crimes de importunação sexual praticados entre 2019 e 2023.
Posteriormente, a Justiça aceitou a denúncia, tornando o ex-bispo réu. O processo segue em andamento, e a defesa do acusado nega as acusações. Até que haja decisão definitiva da Justiça, o caso continua sob análise judicial.
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