Da cultura drag ao pioneirismo trans: Veja quatro nomes que desafiam o tradicionalismo do cenário sertanejo e redefinem a estética da música atual

Conforme até já mencionamos em matérias anteriores, o cenário da música sertaneja sempre foi um espelho das raízes, do cotidiano e dos afetos do interior do Brasil. No entanto, por muito tempo, esse universo foi predominantemente associado a narrativas heteronormativas e a um ambiente tradicionalista que deixava pouco espaço para a diversidade.

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Felizmente, nas últimas décadas, graças à expansão das redes sociais, essa distância ficou pequena e cada vez mais se abre mais espaço para uma realidade muito mais autêntica.

Longe de esconder suas identidades por medo de retaliações comerciais ou perda de espaço no mercado, um receio que por décadas silenciou gerações no passado, novos artistas decidiram romper essas barreiras históricas.

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Ao assumirem publicamente suas orientações e identidades de gênero, essas estrelas do sertanejo não apenas humanizam suas trajetórias, mas também redefinem a própria estética do gênero.

O surgimento do termo Queernejo, fusão entre os conceitos queer (expressões de gênero e sexualidades dissidentes) e sertanejo, batiza oficialmente uma subcultura inclusiva de acolhimento.

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Trata-se de um movimento impulsionado por artistas que, embora nutram uma paixão genuína pelas modas de viola e pela sonoridade caipira, não se viam representados nas letras convencionais.

Abaixo, destacamos quatro nomes que se consolidaram nessa realidade e seus projetos para 2026:

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1. Reddy:

Apontada como uma das principais precursoras do movimento, Reddy (anteriormente conhecida como Reddy Allor) iniciou sua trajetória na música dividindo os palcos em uma dupla sertaneja tradicional ao lado de seu irmão.

Com o tempo, a necessidade de expressar sua arte de forma integral a levou a trilhar uma carreira solo inovadora.

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Consagrada como a grande vencedora do reality show Queen Stars Brasil, Reddy funde de forma primorosa a riqueza instrumental do sertanejo com a grandiosidade e a performance da cultura drag queen.

Reddy (Foto Reprodução/Instagram)
Reddy (Foto: Reprodução/Instagram/@_reedy)

Sua estética disruptiva expande os limites do gênero, provando que o visual pop e a atitude queer se encaixam perfeitamente no cancioneiro sertanejo.

De acordo com as redes sociais oficiais, em 2025, após passar por uma transição de gênero e se assumir oficialmente como uma mulher trans, ela retirou o sobrenome “Allor” dos seus canais oficiais.

Reddy marcou uma nova fase de sua carreira e vida pessoal com o EP “Ao Vivo, Vol. 1”, lançado sob seu novo nome artístico.

O projeto mistura sertanejo e forró em faixas que celebram o amadurecimento e a liberdade criativa. O trabalho reflete seu processo de transição de gênero com alto astral.

2. Gabeu:

Criado nos bastidores da música caipira tradicional, Gabeu traz a vivência de ser filho do cantor Solimões, que faz dupla com Rionegro.

Sem encontrar canções que conversassem diretamente com suas experiências afetivas, o jovem artista inspirou-se no pioneirismo de Reddy para fundar as bases do Queernejo.

Seu álbum de estreia, batizado de Agropoc, furou a bolha do preconceito e conquistou uma indicação histórica ao Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música Sertaneja.

Gabeu (Foto: Reprodução/ Canal André Piunti, YouTube)
Gabeu (Foto: Reprodução/ Canal André Piunti, YouTube)

Além do sucesso crítico, a história de Gabeu chama a atenção pela forte rede de apoio familiar.

Em depoimentos públicos, o veterano Solimões destacou que o afeto e a convivência diária superam qualquer barreira ideológica.

O cantor revelou ter percebido com naturalidade a orientação do filho quando ele tinha apenas oito anos de idade.

Gabeu define a postura acolhedora do pai como “fora da curva”, servindo de exemplo em um meio tradicionalmente resistente a mudanças.

Depois de lançar o EP Rock Bravo em 2025, o Gabeu vive uma fase de conquistas importantes:

  • Pista aberta: Ele está levando o “queernejo” para dentro de rodeios e festivais gigantes em São Paulo e Minas Gerais, derrubando barreiras em lugares que muita gente achava que não iam abrir espaço;
  • Apoio a novos talentos: Além de cantar, o Gabeu virou mentor de novos artistas LGBTQIAPN+ que querem crescer no sertanejo, usando a sua fama para abrir as portas para quem está começando agora.

Com sua guitarra e a viola na mão, ele prova que dá, sim, para ser autêntico e respeitar a tradição sertaneja ao mesmo tempo.

3. Gali Galó:

A pluralidade do movimento ganha ainda mais força com a atuação de Gali Galó, que traz a representatividade não-binária para o centro do debate musical.

Gali se identifica fora do binarismo de gênero (não se limitando exclusivamente às identidades masculina ou feminina) e utiliza a música de forma libertadora.

Sua proposta artística cruza a sonoridade do sertanejo com outras vertentes da música popular e do brega nacional, gerando uma sonoridade autêntica e conectada com a pluralidade do Brasil.

O impacto de seu trabalho na indústria fonográfica foi consolidado com o lançamento do disco homônimo, aclamado pela crítica especializada e eleito pela Folha de S. Paulo como um dos melhores álbuns do ano de 2023.

Gali Galó
Gali Galó (Foto Reprodução/Instagram/@gali.musica)

Em 2026, Gali Galó lança o EP visual “de VOLTa”, um projeto que une música e audiovisual em uma narrativa contínua sobre memória e pertencimento, filmada em uma casa.

Com colaborações diversas, o trabalho celebra a MPB contemporânea e marca a estreia da banda Quarta Pele, composta por artistas transmasculinos.

O projeto culminou em uma apresentação especial no Sesc Ribeirão Preto, no dia 19 de abril.

4. Quem é Alice Marcone?

Primeira cantora e compositora abertamente transexual a despontar no universo sertanejo, Alice Marcone imprime em suas composições a clássica estrutura da “sofrência”, do amor e do empoderamento, elementos que consagraram as vozes femininas do gênero na última década.

Sua assinatura musical mescla os arranjos de cordas tradicionais do ritmo com batidas contemporâneas do pop.

Alice Marcone
Alice Marcone (Foto Reprodução/Instagram/@alice.marcone)

Em declarações públicas à imprensa, a artista enfatizou a importância de construir um imaginário próprio para os fãs que compartilham das mesmas vivências.

Alice pontua que o principal objetivo do grupo é criar representação estética a partir de contextos rurais ou urbanos fortemente influenciados pela cultura sertaneja, normalizando as narrativas LGBTQIAPN+ por meio das canções.

Em 2026, a multiartista firma a sua trajetória no audiovisual brasileiro, destacando-se como atriz protagonista, roteirista e professora, sem deixar de lado sua carreira musical.

Neste ano de 2026, ela celebra o seu primeiro papel principal no longa “Eu Vou Ter Saudades de Você”, além de seu trabalho contínuo como roteirista de sucesso e mentora de novos talentos na Roteiraria.

Paralelamente, Alice segue como uma das pioneiras do “queernejo”, reforçando seu compromisso com a representatividade LGBTQIAP+ na música e no cinema.

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